quarta-feira, fevereiro 16

A fé de Psiquê

Não era como entoava a voz, ou como selecionava as palavras para um discursos, a dor se alojava ao canto do olho, que cintilava em naturalidade. Ela já pensava que sua fé jamais seria a mesma, tão intocável, tão inatingível, simplesmente destruída. O tempo andara sendo mais que narrador dos seus passos, era também uma espécie de arqui-inimigo. A dor vinha em suas inúmeras formas se manifestando e dominando, avisando de quem haveria de ser o senhor. Psiquê pensava enquanto acariciava o gato medonho, cujo qual ela havia salvado, que estava deitado no seu leito. Encontrava-se no chão e os pensamentos na altura. O último baluarte fora atacado, aquilo era o fruto do que havia plantado? Indagava a si mesma constantemente a mesma pergunta, não se sabe quem poderia responder, talvez o seu parceiro de vida tão traidor - O Tempo - pudesse. Até que a um certo instante tudo ficara claro em sua mente. Tratava-se de um pensamento análogo as ostras. Pequenas estruturas sólidas com aberturas miudinhas permeáveis, que vez ou outra entravam-lhes corpos estranhos. Isso era ela. Lembrou-se de como tudo acontecera, essas invasões de corpos e sentimentos indesejados dentro de si. Mas eram sim, aquelas mesmas pequenas partículas que a transformavam em algo raro, algo valorizado, que se valorizava. Reverberou e por fim sua falta de fé, seu momento de desafeto e incompreensão ao mundo, resultou em felicidades. Eram aqueles sentimentos ingratos que a faria ser a melhor de todas, a mais especial. Nunca mais questionaria sua fé, porque foi justamente em um momento de incompreensão que percebera que perder-se também era o caminho para a perfeição, bastava moldar-se. 

Para Manuella Logrado.