sábado, janeiro 8

Aguardente

Pediu uma dose de tequila com limão e sal, já não sabia o que fazer. O relógio ainda girava com a mesma precisão de outrora, mas agora lhe doía uma dor absurda, um ódio absurdo emergia. O que fazer? Perguntava a si mesmo. Tudo estava completamente errado. O orgulho então fora capaz de cegar-lhe até a última instância, pensou ele. Encarou o copo a sua frente, inclinou-o a um ângulo agudo a boca. Bebeu tudo sem pestanejar. Aguardente, sempre entendera muito bem aquele significado, entretanto já grassava no peito coisa que ardesse mais. Já não há esperanças, não há. Queria contar com alguém, sentir-se vivo por alguma razão. Mas a realidade se mostrava clara, ele era só mais um que sofria no mundo, em um bar vinte e quatro horas, tentando afogar seu amor a cada dose. Não havia com quem contar.
 –  Desafortunados não são os que amam, mas os que temem amar. Os que não ouvem a voz do coração hão de pagar, cedo ou tarde. Angústia maior não se tem. Saber que o que lhe é maior, anda por trilhos diferentes dos teus. Que orgulho e medo, características humanas, são na verdade condenações, sofrimento. Dor maior não se tem, estamos todos condenados a nossa própria condição, pensou baixo.
não se atreveria a chamar atenção em um bar como aquele. Quão clichê isso poderia ser? Não, não. Sua condição já lhe era deveras embaraçosa. acalmou-se.