terça-feira, janeiro 25

Navegar é preciso; viver não é preciso

Não precisou ter uma noite de sonhos inquietantes, o pesadelo estava vivo.  Poderia dividir a vida em duas partes extremamente opostas: Viajar e viver. Corria desordenadamente em busca de seus pertences que se encontravam dispersos por toda a casa, havia poucas horas para organizar tudo que era de cunho material. De cunho material. A consciência, quem poderia organizar? Colocou tudo que podia numa mala preta, sua caixa de pandora particular. Faltava então muito pouco para partir. A euforia percorria seu corpo, já com certa intimidade, surgia ali um pouco de alívio também, deixaria aquela cidade e os tormentos que nela se encontrava, ia de encontro agora a novos relevos para apaziguar a alma. Aprendera muito bem quando estudara a escola literária romântica sobre o escapismo, desde então se tornou sua palavra mais do que predileta, não havia de ser coincidência.
A vida andara sendo muito cruel, e tentava ao seu máximo agarrar-se a fagulhinhas de fé que surgiam dentro de si, mas não haveria de ser fácil. A única certeza que tinha, que ainda lhe acalmava, era de que a cada dor maior, mais perseverante ficava. Repetia o monólogo interno:
– É preciso deixar ir, é preciso deixar ir. Viver e deixar morrer.
Chegou ao seu destino, finalmente. Reverberou, reverberou enquanto via a lua subir ao ponto mais alto do céu fluminense, refletindo sua luz nas águas daquela baía. Paz reinara em sua mente, estava tudo calmo. Um amigo, parido da mesma terra que outrora havia lhe parido também, a interrompera. Trazia nas mãos uma garrafa de vinho, na boca um sorriso de embriaguez. Sentou-se ao seu lado e as vozes iniciaram uma conversação:
Ele: É como se ainda estivéssemos aprisionados na caverna, julgando as coisas só pela sombra.
Ela: Platão esteve certo o tempo todo.
Ele: Às vezes é angustiante isso, mas talvez ‘A Caverna’, estar preso na escuridão, não seja de todo ruim. Talvez se nós soubéssemos tudo, visemos às coisas como realmente são em sua claridade e não em sombras, não saberíamos apreciar o que nós temos.
Ela: Eu só anseio a liberdade.
Muito longe de casa, a água e o vinho, a presença do ombro amigo avisava que no mundo, havia outros que também sofriam. Vinha o silêncio, vinha o vento. Traziam a sensação de deriva. Já era hora de viajar, outros cais precisavam lhe receber. Deixou na areia tudo que a aprisionara até então.

domingo, janeiro 23

Estudos cromáticos

A luz que brilha em você vem do sol amarelo? Deve ele, sim, ter emprestado sua nobre cor. Ah! Eu que eu te vejo refletindo cores, sempre, como puder ser tão descuidada? Não percebi. Meus estudos cromáticos revelam, és da magnitude branca ou talvez seja o preto mistério. Reflete todas as cores como o branco e absorve tudo como o preto, também. Será então um eterno Yin-Yang, movido sempre por cores e forças opostas, em eterna sincronia. Procede por meio de semitons de cores suaves, uma música que sempre me convida pra dançar. De ritmo fácil e passos próprios e singulares, quem poderá modificar gestos tão autênticos? É de sorriso doce e compreensível olhar, braços como berços para afagar. Ele suspira amor, que nenhum poeta pode descrever, porque não é idealizado, não é mito de amor romântico. São certezas e cotidiano. È o próprio dia-a-dia, é o amor na sua forma mais singela, são cores que chegam de todos os lugares. Oh! Que descuido esse meu. Não percebi. Não percebi que eras tu a própria luz que reluzia, que refletia cores e também as absorvia, era uma forma de disco cromático, quiçá uma forma peculiar de sol, mas sem dúvida, meu.

Para Ygor, em 03/11/2010

quinta-feira, janeiro 13

Vênus em fúria

Caíra à noite, aprontava-se com certa agilidade, a vida chamava-lhe porta fora, tinha pressa de abraçar o mundo, corria. Ah! Essa escravidão maldita, jamais a deixaria em paz. Tornara-se escrava dos seus próprios desejos, era uma espécie de escorpião dando a se mesmo ferroadas, se satisfazendo a cada dosagem do veneno que fora gerado dentro de si mesmo.
Sua prática de devoção aos prazeres, aquecia o sangue, lhe satisfazia. Já não sabia viver de outro jeito exceto pelo estado natural. Corria os sete cantos da cidade, afim de mais uma noite de puro deleite.
– Pra onde vai? Interrompia um anônimo perdido na noite que se estendia.
– Pro mundo. A resposta pronta que sempre gostava de dizer.
De fato, fazer a boa moça, moral, ética, foram temáticas que fugiam a sua conduta, palavras que corriam do seu dicionário pessoal.  Era selvagem e de natureza arredia. Ardia um fogo no peito, sua chama dos prazeres. Estava pronta para se queimar em suas buscas intermináveis pelo  prazer e seguia adiante mesmo que isso pudesse destruir a si mesma. Havia sim quem não concordasse: falsos puritanos, moralistas que já condenavam coisas menores. Mas sempre ria com cara de gozo, cantava alto e em bom som “eu sou, eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés”.

sábado, janeiro 8

Aguardente

Pediu uma dose de tequila com limão e sal, já não sabia o que fazer. O relógio ainda girava com a mesma precisão de outrora, mas agora lhe doía uma dor absurda, um ódio absurdo emergia. O que fazer? Perguntava a si mesmo. Tudo estava completamente errado. O orgulho então fora capaz de cegar-lhe até a última instância, pensou ele. Encarou o copo a sua frente, inclinou-o a um ângulo agudo a boca. Bebeu tudo sem pestanejar. Aguardente, sempre entendera muito bem aquele significado, entretanto já grassava no peito coisa que ardesse mais. Já não há esperanças, não há. Queria contar com alguém, sentir-se vivo por alguma razão. Mas a realidade se mostrava clara, ele era só mais um que sofria no mundo, em um bar vinte e quatro horas, tentando afogar seu amor a cada dose. Não havia com quem contar.
 –  Desafortunados não são os que amam, mas os que temem amar. Os que não ouvem a voz do coração hão de pagar, cedo ou tarde. Angústia maior não se tem. Saber que o que lhe é maior, anda por trilhos diferentes dos teus. Que orgulho e medo, características humanas, são na verdade condenações, sofrimento. Dor maior não se tem, estamos todos condenados a nossa própria condição, pensou baixo.
não se atreveria a chamar atenção em um bar como aquele. Quão clichê isso poderia ser? Não, não. Sua condição já lhe era deveras embaraçosa. acalmou-se.