Cabelo negro escorrido, cobrindo a nuca, cobrindo desejos.
Já de longe via atravessares o campo. Não por meus olhos, não deixarem nada escapar, mas por você ser quem tu és, pelo magnetismo de todas as nossas ações, pólos opostos se atraindo mutuamente. Pros meus olhos, ao olhar lançado, você olhou também e uma imensa agonia nascia em mim. Era você se espalhando aqui dentro.
Incessantemente, o acaso não cansava de dançar, trazia ao ritmo você pra mim, trazia uma conversa casual entre nós, regada de euforia cujo qual tentávamos disfarçar e quando não, riamos um pouco constrangidos. A mão fez o convite que a boca aguardava. Entre os movimentos dos lábios, o desejo ardia e no ápice do prazer, já não sabia o que era meu corpo e o que era o corpo dele. Entre todos os movimentos, agora ali parados, deitados na cama, conversávamos sobre casualidades e situações de outrora, mas ele dizia com os olhos mais do que acreditava dizer, ao meu gesto, acariciar aqueles cabelos indígenas ou tocar aquela face fenotipicamente latina. Setenta e duas horas de deleite, e o acaso nada poderia fazer agora, hora da despedida, hora de quebrar toda aquela sincronia preestabelecida. E o que nos uniu como desejo, separariam nos como solidão. Vejo-te agora apenas em sonhos, quando tu vens vez ou outra me amar.