segunda-feira, março 14

Whatever will be, will be.

Passara a manhã toda tão presa a seus afazeres que esperava a noite com certa ansiedade, desejava veementemente uma boa noite de sono, encostar a cabeça no seu travesseiro e descansar, desfazer-se da rotina do dia. A escuridão lhe soava tão melhor. Eis então, que tirado a roupa correu direto em direção à ducha, ensaboava-se com certa agilidade, vil. A necessidade da pureza tomava conta de sua mente, não desejava sentir no corpo o cheiro alheio. Desejava não sentir nada. A água caia inóspita sobre si e uma voz emergia mentalmente gritando “-Cala-te, escuta teu coração!” soava tão irritadiça, que assustava. Ali ainda de pé diante ao espelho, percebeu como despir a roupa era tão fácil, bastava-lhe um gesto, e toda a ação estava realizada, mas quanto a despir a alma, parecia algo tão absurdo e pouco conquistável, conhecer a si mesmo, transparecer, não acreditava ser possível. Não acreditava também que conseguiria se desfazer do dúbio e compreender seus próprios sentimentos, mas sabia que seria contrária a qualquer instituição que a privasse de sua própria liberdade. Sabia reconhecer seus próprios dramas, seus próprios abismos, e as certezas moravam bem longe de onde se encontrava. Certa vez, dissera: “nós” numa frase corriqueira do cotidiano, mas a profundidade estava ali, queria ser vista. Pronomes eram seus inimigos, especialmente os possessivos, não possuíra nada, tampouco outro ser humano. A infelicidade do dizer tirou algumas noites de sono, impediu-a de reconfortar a cabeça e o corpo. Mas queria sim, de fato, o corpo dele, o amor dele, tudo que aspirado em liberdade se pudesse obter. A ambivalência dos pensamentos maltratava o coração. O amor nos divide de tal maneira que às vezes soa imperceptível, mas as rachaduras estão lá. Havia tantas perguntas, e a cada nova resposta o inicio de algumas outras tantas. Não esperava rosas ou juramento de amar-até-que-a-morte-nos-separe, pedia apenas coisas pequeninas e singulares, como um beijo no olho, pedia apenas o cotidiano e as verdadeiras agonias, a solidão. Se fosse simbólico, seria simbólico de uma forma particular, sem nenhuma instituição a alienar o desejo de liberdade experimentado por ambos, que nada que fosse pré-definido os representasse. Havia tão pouco a se fazer, deixou então o acaso fazer cantarolar a sua música predileta de “O que tiver de ser, será”.

quinta-feira, março 3

Nostalgia de Carnaval

Marcava às nove horas de uma quinta-feira de Carnaval.  Janela a fora havia sons, ansiedade e rostos traduzindo alegrias. Era Carnaval, todos sabiam. A cidade organizava todas as suas cores em muros, roupas, casas e avenidas. Aqui dentro, havia certa calmaria que outrora viraria estremecimento, tempos passados. Mas o desejo falava forte, a nostalgia e o gosto estavam tão presentes, que poderia dizer que era real. Às nove horas de uma quinta-feira de Carnaval, deveria estar chegando à casa de tons alaranjados que tinha em Pernambuco. Deveria estar cansada. A noite se jogaria na cama e teria lembranças do sol, de ter passado à tarde em água do velho Chico, mergulhando e olhando atentamente as pedrinhas que habitavam ao chão do rio, nada poderia ser mais importante do que viver e re-viver aquela cena inúmeras vezes, saber apreciá-la, ali nada poderia ser mais importante, mas cá estava a tantos quilômetros de distância e a mente não poderia se aquietar, a densidade do momento falaria mais alto, era Carnaval.